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SALA DOS PROFESSORES



Alfabetização, leitura e ensino de Português: desafios e perspectivas curriculares


Por: Antônio Augusto Gomes Batista
Educadores que, como eu, estão trabalhando faz um bom tempo com o ensino de língua materna percebem certamente o quanto importantes dimensões do currículo da área mudaram nas últimas duas décadas. Um rápido exame de livros didáticos de alfabetização e de Português permite essa constatação.
No início da década de 1990, por exemplo, não havia ainda os chamados “livros de alfabetização”, tal como hoje. Existiam, predominantemente, cartilhas que concretizavam exclusivamente as etapas e processos de um método, fosse ele alfabético, fônico, ou, mais frequentemente, global ou silábico. Quando apresentavam textos, estes se restringiam, na maior parte das vezes, a um conjunto de frases sem muito sentido (ou com sentidos surpreendentes) e com pouca articulação entre si, destinado à exploração das relações entre letras e sons (como em “o bebê baba” ou “a girafa está na geladeira”). Não havia atenção ao desenvolvimento da oralidade, essa dimensão tão importante do aprendizado linguístico das crianças que ingressam no ensino fundamental. Tampouco apresentavam propostas para o desenvolvimento da compreensão leitora e da capacidade de produzir textos, pois se pressupunha, então, que os usos da escrita só poderiam ser estimulados e explorados depois da alfabetização. Por isso, propostas com essas finalidades apareciam apenas nos livros destinados aos anos posteriores.
Nos livros de Português para esses anos, principalmente naqueles voltados para as séries finais da educação fundamental, as atividades de leitura se faziam quase sempre em torno de um único gênero – a crônica – e tendiam a explorar um número muito reduzido de habilidades, como a retirada de informações e a compreensão de trechos isolados. A redação se fazia a partir de um tema indicado, sem que se dessem diretrizes sobre as condições de produção dos textos e sem que se realizasse um processo de alimentação temática e de discussão da forma da composição (que, quando ocorria, envolvia apenas aspectos relacionados a tipos de textos, como o descritivo, o narrativo, o dissertativo e o argumentativo). O ensino sistemático de conteúdos gramaticais reinava soberano e seu aprendizado constituía o objetivo privilegiado da disciplina.
Nada mais diferente dos livros contemporâneos: em conformidade com as atuais propostas e documentos curriculares, eles assumem que o objetivo do ensino de língua materna é levar os alunos a dominar distintos usos da língua, nas modalidades oral e escrita. Tendem a apresentar uma diversificada seleção de textos, que busca representar a própria diversidade de textos que circulam socialmente, de modo a familiarizar os alunos com distintas esferas discursivas, assim como com diferentes gêneros e suportes de texto. Tendo em vista a esfera, tendem, por exemplo, a estar presentes textos jornalísticos, literários, escolares, científicos e publicitários, dentre outros. No que diz respeito ao gênero, há notícias, contos, entrevistas, verbetes de dicionários ou de enciclopédias, gráficos, anúncios. Em relação aos suportes, aparecem textos publicados na internet, em livros, em revistas, jornais, cartazes. A oralidade está presente em propostas de redação e na leitura de textos que, como parlendas, piadas, poemas, contos populares e adivinhas, possuem uma forte base na modalidade oral da língua.
Nos livros de alfabetização, atividades de leitura e produção de textos são propostas mesmo antes de o aluno dominar o sistema de escrita, quer dizer, as capacidades de codificar e de decodificar. Nesses livros, muitas é vezes é difícil – o que não deixa de ser problemático – determinar quais são as atividades voltadas para a exploração dessas capacidades, pois raramente estão em conformidade com um método específico de alfabetização e com freqüência são propostas de modo assistemático e no interior de atividades de uso da língua. A gramática, principalmente nos livros posteriores à alfabetização, tampouco é sistematicamente explorada: seu estudo é proposto no quadro de atividades de leitura e produção de textos, envolve conhecimentos que não se restringem mais ao nível da sentença e raramente seu exame é feito com apoio de uma nomenclatura sistematicamente apresentada. Quando seu ensino é explícito, aparece nos livros como um anexo ou parte, e, como disse outro dia um de meus alunos do curso de Letras, de forma “envergonhada”.
As alterações e mudanças curriculares não se fazem, porém, sem problemas e terminam por criar novos desafios para nós, educadores. É que, por um lado, currículos – aquilo que ensinamos e modo como ensinamos – são sempre uma resposta a nosso modo de apreender o mundo, suas exigências e suas modificações. Tanto o mundo se modifica quanto mudam nossas maneiras de apreendê-lo. Por outro lado, a própria dinâmica do currículo gera problemas: tendências que se radicalizam, áreas e processos de ensino que se mostram muito resistentes à mudança, resultados limitados em determinadas práticas e mesmo – como me parece estar ocorrendo hoje – um crescimento excessivo dos conteúdos curriculares, o que faz com que os educadores tenham dificuldades de definir o que priorizar num determinado momento do processo de ensino. Essa dinâmica curricular supõe, por isso, o confronto com avaliações periódicas de modo a apreender limitações e fragilidades, para o estabelecimento de processos contínuos de aprimoramento e ajuste.1
A entrada no ensino fundamental aos seis anos, por exemplo, desafia os educadores a pensar práticas curriculares mais adequadas ao ensino e à formação de crianças nessa faixa etária. Que práticas podem favorecer sua educação e seu aprendizado da leitura e escrita? As avaliações das habilidades em leitura dos alunos mostram que o alcance das práticas curriculares vem-se mostrando limitado. Por quê? De que modo podem ser aprimoradas para favorecer o domínio da compreensão em leitura? O desenvolvimento e a difusão de novas tecnologias, como os computadores e a internet, também por exemplo, tendem a demandar o domínio de novos saberes relativos à leitura e à produção de textos que se organizam em torno de diferentes linguagens, os chamados textos multimodais. Demandam também o domínio de novas ferramentas, procedimentos e atitudes. Deles deve a escola se ocupar? Como? Quando? No quadro das acentuadas modificações por que tem passado a cultura escrita no mundo contemporâneo, a literatura parece estar adquirindo uma importância cada vez mais relativa. Essa queda de prestígio da cultura literária está, ao que tudo indica, se traduzindo nas práticas curriculares da área de língua materna, em que os textos literários estão perdendo espaço para outros textos, sobretudo para os produzidos na esfera jornalística. É isto mesmo que queremos?
Assim, é importante pensar o currículo de uma área de ensino como um processo dinâmico, que continuamente propõe novos desafios aos educadores. Discutir um desses desafios será meu objetivo neste artigo.
Eu escolhi abordá-lo porque me parece um importante e urgente desafio, mas também porque me permitirá uma abordagem mais abrangente do currículo da língua materna, capaz de trazer tópicos para a discussão tanto por professores das séries iniciais quanto das séries finais do ensino fundamental. Trata-se da indicação, por pesquisas que avaliam em larga escala o aprendizado dos estudantes brasileiros, de que, neste momento, um desafio central do ensino de língua materna reside na consolidação da alfabetização: nós teríamos dificuldades para, tendo levado os alunos a dominar o princípio alfabético e as principais correspondências grafo-fonêmicas (quer dizer, as principais relações que se estabelecem entre letras e sons no sistema ortográfico que utilizamos), consigamos levá-los a desenvolver a compreensão em leitura, assim como a capacidade de produzir textos. Neste artigo, examinarei o problema da consolidação da alfabetização sobretudo tendo em vista a leitura e a compreensão de textos, embora não deixe de explorar – mas de modo mais superficial – o fortalecimento do domínio das correspondências grafo-fonêmicas e a produção de textos escritos.
Em função desses objetivos, organizei o artigo em quatro partes. Na primeira, discuto os dados que apontam para as limitações que temos para consolidar a alfabetização. Para isso, distingo duas etapas no interior desse processo: a alfabetização inicial, de um lado, e seu desenvolvimento e consolidação, de outro. Na segunda parte, apresento perspectivas curriculares gerais para avançarmos nessa segunda etapa do aprendizado da língua escrita. Depois disso, na terceira parte, aprofundo o exame dessas perspectivas, discutindo o ensino da leitura e da compreensão de textos. Como a abordagem de problemas e perspectivas de natureza didático-pedagógica tende a exigir a assunção de um ponto de vista abstrato e desvinculado das condições efetivas de trabalho, busco, ao final do artigo, inserir a abordagem no quadro dessas condições concretas, lembrando algumas coisas por que lutarmos para que, de fato, as perspectivas curriculares discutidas aqui possam se tornar presentes na sala de aula e nas escolas.

Leia o artigo na íntegra : 





Atividades de Filosofia -  2º Bimestre


1ª Série (A,B,C, D, E, F)

ü      Assistir aos filmes de curta metragem, disponíveis no Blog: “Ilha das Flores”  e “A Alma do Negócio”
Elaborar um trabalho em grupo (5 pessoas) (Introdução, Desenvolvimento e Considerações Finais).

2ªSérie (A, B, C, D, E, F, G)

ü      Assistir e elaborar um trabalho em grupo (5 pessoas) sobre a palestra da filósofa Viviane Mosé: “Desafios Contemporâneos – A Educação” (Disponível no Blog)

3ª Série (A, B, C, D, E, F)
ü      Assistir e elaborar um trabalho em grupo (5 pessoas) sobre a palestra do Prof. Dr. Marcos Cavalcanti: “Desafios Contemporâneos – O Trabalho” (Disponível no Blog)

1ª , 2ª e 3ª Séries
ü      Visitar, pelos menos, três dos sites sugeridos e realizar um relatório com introdução, desenvolvimento e considerações finais.

Sites de Ciências

1.       Portal Prandiano -

2.       Feira de Ciências -

3.       Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife -

4.       Instituto Internacional de Neurociências de Natal -
                 http://www.natalneuro.org.br/

5.      Tabela Periódica -

6.      Arte Matemática -

7.      Ciência Pura e Aplicada -

Sites de Artes
1. MASP:  

2. Pinacoteca:

3. Capela Sistina:

4. Museu Virtual do Iraque: 

5. Cultivox (e-livros grátis):

6. Trama Virtual:

7. Teatro para Alguém:

Blog Galera do Bartho: http://galeradobartho.blogspot.com/  - Links Interessantes, Filmes, Filosofia, Sala dos Professores.
e-mail para dúvidas: prof-filosofia10@hotmail.com

Obs.: Serão aceitos relatórios de outros sites, desde que tenham algo a ver com a proposta da atividade.




21/Abril/2011



Ano de Lançamento: 1998
Gênero: Suspense

Sinopse:

Walmsley, é um professor substituto encarregado de dar aulas para um grupo de adolescentes desajustados totalmente fora de controle. A escola não tem dinheiro, os professores se preocupam apenas em sobreviver e compromissos ilegais impedem qualquer mudança radical. A todo momento ele é insultado e atacado pelos alunos. Cansado de enfrentar tanta humilhação, ele resolve contra atacar. Seqüestra seus alunos e, em um lugar distante, os prende nus em uma jaula eletrificada para uma nova e dura reeducação. Agora, eles terão que aprender… por bem ou por mal!

Assista ao filme on line


Nossa opinião: O filme traz uma temática interessante, mas o enredo fica um pouco perdido. Apesar de ser de 1998, há uma verossimilhança no filme que traduz muito bem uma realidade atual em muitas escolas do nosso estado/país, principalmente no que tange o papel do professor e sua situação. Graças não ser completamente nossa realidade (do Bartho). Não estamos falando de um filme bom, na verdade se trata de um filme regular com um filnal curioso e surpreendente - interessante apenas. Obs: O filme contém cenas de nudez.



08/Fev/11


Como elaborar um artigo científico
Clique no link abaixo e divirta-se


http://www.scribd.com/doc/39912033/Como-Elaborar-Um-Artigo-Cientifico








23/Novembro

FILME - INFERNO DE SÃO JUDAS

Título Original: A Song For A Raggy Boy - 2003

Franklin é um professor laico e foi enviado ao reformatório São Judas, no ano de 1939, por ser contra os membros da igreja. Sozinho entre os "irmãos" Franklin luta pela dignidade dos meninos que sofriam abusos físicos e verbais. Esse "afrontamento" dá-lhe um inimigo, o "irmão" John que é encarregado pela disciplina dos alunos criando regras sem nexo e punindo severamente (espancamentos) quem desrespeitar qualquer uma delas.
"irmão" Mac (pedófilo) abusa sexualmente dos meninos que sofrem constantes ameaças e mesmo algums padres e seus superiores terem conhecimento dos fatos preferem fingir que nada acontece.
Baseado em uma história real, professor Franklin luta para conquistar a amizade e confiança dos seus alunos.

Assista o filme aqui - on line - e emocione-se!





08/Novembro

Leitura Crítica - MONTEIRO LOBATO RACISTA
Na seção Argumento do último número da Revista Virtual Leitura Crítica apresento o texto "Leitura da Realidade Brasileira e a Organização do Ensino da Leitura. Quando a leitura vai levando a breca!".Nesse texto eu procuro mostrar as calamidades cometidas pelos governos na área da promoção da leitura e do livro no Brasil. Agora alguns iluminados do Conselho Nacional de Educação desejam impor uma forma de ler Monteiro Lobato, encontrando trechos preconceituosos em "As Caçadas de Pedrinho". Por entender ser esta mais uma calamidade que se soma às ações "deseducativas" do MEC, transcrevo abaixo, com a devida autorização da autora, um texto de Marisa Lajolo em que ela analisa a decisão do CNE. 
Ezequiel Theodoro da Silva

Na segunda narrativa, a fuga de um rinoceronte de um circo e seu refúgio no sítio de Dona Benta leva para lá a Comissão que o governo encarregou de lidar com a questão. Os moradores do sítio desmascaram a corrupção e o corpo mole da comissão, aliam-se ao animal cioso da liberdade conquistada e espantam seus proprietários. E, batizado Quindim, o rinoceronte fica para sempre incorporado às aventuras dos picapauzinhos.

Estas histórias constituem o enredo do livro que parecer recente do Conselho Nacional de Educação (CNE), a partir de denúncia recebida, quer proibir de integrar acervos com os quais programas governamentais compram livros para bibliotecas escolares. O CNE acredita que o livro veicula conteúdo racista e preconceituoso e que os professores não têm competência para lidar com tais questões. Os argumentos que fundamentam as acusações de racismo e preconceito são expressões pelas quais Tia Nastácia é referida no livro, bem como a menção à África como lugar de origem de animais ferozes.

Sabe-se hoje que diferentes leitores interpretam um mesmo texto de maneiras diferentes. Uns podem morrer de medo de uma cena que outros acham engraçada. Alguns podem sentir-se profundamente tocados por passagens que deixam outros impassíveis. Para ficar num exemplo brasileiro já clássico, uns acham que Capitu (D. Casmurro, Machado de Assis, 1900) traiu mesmo o marido, e outros acham que não traiu, que o adultério foi fruto da mente de Bentinho. Outros ainda acham que Bentinho é que namorou Escobar...!

É um grande avanço nos estudos literários esta noção mais aberta do que se passa na cabeça do leitor quando seus olhos estão num livro. Ela se fundamenta no pressuposto segundo o qual, dependendo da vida que teve e que tem, daquilo em que acredita ou desacredita, da situação na qual lê o que lê, cada um entende uma história de um jeito. Mas essa liberdade do leitor vive sofrendo atropelamentos. De vez em quando, educadores de todas as instâncias da sala de aula ao Ministério de Educação- manifestam desconfiança da capacidade de os leitores se posicionarem de forma correta face ao que lêem.
Infelizmente, estamos vivendo um desses momentos.

Como os antigos diziam que quem paga a música escolhe a dança, talvez se acredite hoje ser correto que quem paga o livro escolha a leitura que dele se vai fazer. A situação atual tem sua (triste) caricatura no lobo de Chapeuzinho Vermelho que não é mais abatido pelos caçadores, e pela dona Chica-ca que não mais atira um pau no gato-to. Muda-se o final da história e re-escreve-se a letra da música porque se acredita que leitores e ouvintes sairão dos livros e das canções abatendo lobos e caindo de pau em bichanos. Trata-se de uma idéia pobre, precária e incorreta que além de considerar as crianças como tontas, desconsidera a função simbólica da cultura. Para ficar em um exemplo clássico, a psicanálise e os estudos literários ensinam que a madrasta malvada de contos de fada não desenvolve hostilidade conta a nova mulher do papai, mas ao contrário- pode ajudar a criança a não se sentir muito culpada nos momentos em que odeia a mamãe, verdadeira ou adotiva...
Não deixa de ser curioso notar que esta pasteurização pretendida para os livros infantis e juvenis coincide com o lamento geral - de novo, da sala de aula ao Ministério da Educação pela precariedade da leitura praticada na sociedade brasileira. Mas, como quem tem caneta de assinar cheques e de encaminhar leis tem o poder de veto, ao invés de refletir e discutir, a autoridade veta. E veta porque, no melhor dos casos e muitas vezes com a melhor das intenções, estende suas reações a certos livros a um numeroso e anônimo universo de leitores...No caso deste veto a "Caçadas de Pedrinho", Conselheira Relatora Nilma Lino Gomes acolhe denúncia de Antonio Gomes da Costa Neto que entende como manifestação de preconceito e intolerância de maneira mais específica a personagem feminina e negra Tia Anastácia e as referências aos personagens animais tais como urubu, macaco e feras africanas; (...) aponta menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano , que se repete em vários trechos do livro analisado e exige da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura.

Independentemente do imenso equívoco em que, de meu ponto de vista, incorrem o denunciante e o CNE que aprova por unanimidade o parecer da relatora, o episódio torna-se assustador pelo que endossa, anuncia e recomenda de patrulhamento da leitura na escola brasileira. A nota exigida transforma livros em produtos de botica, que devem circular acompanhados de bula com instruções de uso.

O que a nota exigida deve explicar? O que significa esclarecer ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura? A quem deve a editora encomendar a nota explicativa ? Qual seria o conteúdo da nota solicitad? A nota deve fazer uma auto-crítica (autoral, editorial?), assumindo que o livro contém estereótipos? A nota deve informar ao leitor que "Caçadas de Pedrinho" é um livro racista? Quem decidirá se a nota explicativa cumpre efetivamente o esclarecimento exigido pelo MEC?


As questões poderiam se multiplicar. Mas não vale a pena. O panorama que a multiplicação das questões delineia é por demais sinistro. Como fecho destas melancólicas maltraçadas aponte-se que qualquer nota no sentido solicitado independente da denominação que venha a receber, do estilo em que seja redigida, e da autoria que assumir - será um desastre. Dará sinal verde para uma literatura autoritariamente auto-amordaçada. E este modelito da mordaça de agora talvez seja mais pernicioso do que a ostensiva queima de livros em praça pública, número medonho mas que de vez em quando entra em cartaz na história desta nossa Pátria amada idolatrada salve salve. E salve-se quem puder... pois desta vez a censura não quer determinar apenas o que se pode ou não se pode ler, mas é mais sutil, determinando como se deve ler o que se lê!

Marisa Lajolo - Profª Titular (aposentada) da UNICAMP. Profª da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pesquisadora Senior do CNPq. Organizadora, com João Luís Ceccantini do livro de Monteiro Lobato livro a livro (obra infantil), obra que recebeu o Prêmio Jabuti 2010 como melhor livro de não ficção. 

Quem paga a música escolhe a dança?
Marisa Lajolo
 
"Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato, está em pauta e é bom que esteja, pois é um livro maravilhoso. Narra as aventuras da turma do sítio de Dona Benta primeiro às voltas com a bicharada da floresta próxima e, depois, com uma comissão do governo encarregada de caçar um rinoceronte fugido de um circo. Nos dois episódios prevalecem o respeito ao leitor, a visão crítica da realidade, o humor fino e inteligente.

Na primeira narrativa, a da caçada da onça, as armas das crianças são improvisadas e na hora agá não funcionam. É apenas graças à esperteza e inventividade dos meninos que eles conseguem matar a onça e arrastá-la até a casa do sítio. A morte da onça provoca revolta nos bichos da floresta e eles planejam vingança numa assembléia muito divertida: felinos ferozes invadem o sítio e de novo - é apenas graças à inventividade e esperteza das crianças (particularmente de Emília) que as pessoas escapam de virar comida de onça.



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 05/Out

Para conhecer Vygotsky 

34 anos que mudaram a história da educação e da psicologia
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Foram breves 34 anos, mas mudaram a história da psicologia e da educação. Lev Vygotsky que durante muitos anos foi censurado em seu próprio país de origem, a Rússia, em virtude do regime político totalitário de Stálin, ganhou o mundo apenas a partir do final dos anos 1950 e início da década de 1960 quando algumas de suas obras foram traduzidas para o inglês, o francês e o alemão e chegaram às universidades americanas e européias.
Sua carreira começou somente aos 21 anos e coincidiu com a Revolução Proletária que mudou os alicerces da Rússia. Deve-se inclusive destacar que entre os fundamentos do pensamento vygotskiano encontram-se as influências marxistas do materialismo histórico e dialético. E é com base no método dialético que o pesquisador compôs as pesquisas que realizou em sua tentativa de identificar as mudanças qualitativas do comportamento humano em seu desenvolvimento e relação com o contexto social.
Além das claras influências marxistas em seu trabalho, Vygotsky teve contato com expoentes de muitas outras áreas do conhecimento como os literatos Tolstoy, Bunin e Dostoyevsky, os filósofos James, Hegel e Spinoza, especialistas em psicologia como Freud e Pavlov, poetas como Blok, Pushkin e Tyuchev.
Sua formação e estudos primam pela riqueza e diversidade. Formou-se em Literatura e Direito pela Universidade de Moscou, estudou História e Filosofia na Universidade Popular de Shanyavskii e ainda fez cursos nas faculdades de Medicina de Kharkov e Moscou. Não complementou as formações em História e Filosofia, tampouco em Medicina, mas encontrou nesses cursos subsídios que precisava para desenvolver os estudos na área de psicologia.
Fica clara em sua formação, realizada entre o final da década de 1910 e início dos anos 1920 que Vygotsky estruturava seu conhecimento dentro de uma proposta interdisciplinar. A riqueza de seu aprendizado e maturação intelectual permitia ao pesquisador desenvoltura e brilho em diversas áreas do conhecimento:- Da poesia a medicina, da filosofia a psicologia, das ciências sociais a lingüística, das artes a antropologia, da história a educação.
Sua base familiar, estruturada em Orsha, na Bielo-Rússia, era forte o suficiente para lhe proporcionar interesse e a dedicação aos estudos. Nascido em 17 de novembro de 1896, Lev Semenovich Vygotsky tinha mãe educadora e seu pai trabalhando num banco e numa companhia de seguros. Sua família, de origem judaica, era formada pelos pais e por mais sete irmãos. As restrições que se aplicavam a comunidade judaica na Rússia e em outras partes do mundo na virada do século XIX para o XX talvez expliquem a disposição de seus pais no sentido de dar aos filhos uma formação sólida para que seus futuros pudessem viver dias melhores.
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Os principais trabalhos de Vygotsky estão disponíveis em português.

Essas mesmas dificuldades relativas ao judaísmo também fizeram com que Vygotsky tivesse que ser educado dentro de sua própria casa até os 15 anos de idade com o apoio de tutores particulares e da própria mãe. Esse pormenor não foi considerado um obstáculo tão grande ao desenvolvimento do jovem estudante que era um leitor ávido a ponto de visitar com grande constância a biblioteca local e estudar sozinho em muitas oportunidades. Casou-se em 1924 com Roza Smekhova e teve duas filhas.
A partir de 1917 iniciou uma carreira que se encerraria precocemente em virtude de uma tuberculose em 1934. Entretanto foi extremamente prolífico em sua produção desde o seu princípio, ainda na cidade de Gomel, onde esteve até 1923, e fundou uma editora, criou uma revista literária, estruturou um laboratório de psicologia, dirigiu a seção de teatro do departamento de educação e ainda proferiu várias palestras cujas temáticas centrais eram a ciência, a literatura e a psicologia.
É também nesse período que concentra suas pesquisas na busca de explicações acerca da compreensão dos processos mentais humanos. Para tanto procurava desenvolver suas pesquisas tendo como elementos essenciais as crianças que apresentavam deficiências como problemas mentais, cegueira, impossibilidade de expressão pela fala ou pela escrita, dificuldades de compreensão da comunicação oral,...
Aos 28 anos foi descoberto pela comunidade científica russa a partir da apresentação de um trabalho num Congresso de Psicologia em Leningrado. Demonstrou competência, firmeza e conhecimento de causa na exposição que fez sobre o comportamento consciente humano. Isso lhe abriu as portas do prestigioso Instituto Moscovita de Psicologia.
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Lev Vygotsky, numa de suas raras fotografias.
A partir de seu trabalho em Moscou ganhou autonomia para propor e concretizar o surgimento do Instituto de Estudos das Deficiências. Seus estudos em Psicologia andavam a todo o vapor, entretanto Vygotsky sabia das claras relações que existiam entre seu tema de estudos, a busca da compreensão dos processos mentais humanos e a educação. Por esse motivo trabalhava em Narcompros no Departamento de Educação.
Centralizou seus estudos no desenvolvimento e na aprendizagem infantil, área identificada como Pedologia, que abrange o estudo dos aspectos biológicos, antropológicos e psicológicos das crianças. Não pretendia com isso se especializar no estudo das crianças. Era apenas o caminho percebido por Vygotsky para a resolução de um tema muito mais amplo e abrangente, o desenvolvimento humano.
Concluiu que as funções psicológicas superiores tem origens sócio-culturais e dependem de processos psicológicos elementares, de origem biológica. Nesse ínterim é importante destacar que para Vygotsky a apropriação de conhecimentos pelos seres humanos é decorrente da interseção entre aspectos da história pessoal e social, ou seja, há uma clara influência da família e da genética ao mesmo tempo em que, sem dúvida, somos também resultantes do contexto sócio-histórico em que vivemos.
Sua obra teve continuidade após sua prematura morte em 1934 a partir do trabalho de dois abnegados pesquisadores que colaboravam e participavam de seus projetos, Alexei Leontiev e Alexander Luria. Os três estudiosos, liderados por Vygotsky, reuniam-se pelo menos duas vezes por semana por períodos de até 6 horas.
De todo o seu tempo dedicado à pesquisa surgiram diversas teorias de reconhecido valor e profundidade apresentadas ao mundo a partir de obras como: Os princípios da educação social das crianças surdas-mudas (1925), O consciente como problema da psicologia do comportamento (1925), A pedologia de crianças em idade escolar (1928), Estudos sobre a história do comportamento (1930), Lições de psicologia (1932), Pensamento e Linguagem (1934),...
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Suas obras foram traduzidas para diversas línguas, como o inglês.
Entre suas principais teorias e idéias destacamos:
  • O processo de formação de conceitos remete às relações entre pensamento e linguagem, a internalização mediada pela cultura e ao papel da escola na transmissão de conhecimento.
  • As chamadas funções psicológicas superiores como a memória e a linguagem são construídas ao longo da história social do homem e de sua relação com o mundo. São provenientes, portanto, de ações conscientes e intencionais dependentes de processos de aprendizagem.
  • O conhecimento do homem é mediado, ou seja, construído a partir de processos sócio históricos em que não há acesso direto aos objetos, mas a recortes da realidade constituídos a partir de sistemas simbólicos elaborados pela própria humanidade em sua história.
  • É a linguagem que funciona como sistema simbólico representativo ao fornecer conceitos, formas de organização do real e estruturar a mediação entre sujeito e objeto dos conhecimentos.
  • A cultura concede as pessoas os sistemas simbólicos representativos da realidade que permitem a compreensão e interpretação do mundo real.
  • São funções mentais o pensamento, a memória, a percepção e a atenção. O pensamento tem como origem a motivação, a emoção, o afeto, o impulso, o interesse e a necessidade.
  • dois níveis de desenvolvimento segundo Vygotsky, o real e o potencial. O primeiro refere-se ao que a criança consegue fazer por si própria enquanto o segundo concretiza-se a partir da capacidade de aprender com as outras pessoas.
  • A relação de distância entre o desenvolvimento real e o potencial cria as chamadas zonas de desenvolvimento proximal (que refere-se a potencialidade de aprender ou ainda o vácuo que existe entre o que a criança pode aprender por si mesma e o que ela pode fazer a partir da orientação e intervenção de um adulto).
  • O desenvolvimento cognitivo é resultado do processo de internalização da interação social com os subsídios provenientes da cultura.
  • Segundo Vygotsky, os sujeitos não são apenas ativos, mas interativos porque seus conhecimentos se estabelecem a partir das relações intra e interpessoais.
  • Os conceitos de Vygotsky percebidos no contexto educacional nos permitem perceber a escola como o local onde há intencionalidade na intervenção pedagógica e que isso promove o processo de ensino-aprendizagem. Nesse ínterim o professor interfere objetiva, intencional e diretamente na zona de desenvolvimento proximal.
  • O estudante é percebido como aquele que aprende os valores, linguagem e o conhecimento que seu grupo social produz a partir da interação com o outro, no caso, o professor.
  • A aprendizagem é entendida como fundamental ao crescimento, adaptação e desenvolvimento dos processos de interação social dos estudantes.

Por João Luís de Almeida Machado Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).
Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br

25/set

Educação dos filhos começa pelo respeito aos pais e professores 

Pais que não impõem limites podem prejudicar o desenvolvimento da criança

Por Dr. Blenda Oliveira
Outro dia estava visitando uma escola que iniciava seu ano letivo. Havia várias crianças bem pequenas em adaptação. Algumas mães choravam, outras pareciam inquietas, outras irritadas. As crianças ora choravam, ora mostravam interesse e curiosidade. Uma situação bastante inquietante. Aos poucos, cada um era levado para sua sala, acompanhado pela professora, "a tia", e os amiguinhos. Porém, a curiosidade, nem sempre, suplantava a insegurança de deixar para trás o aconchego conhecido para desbravar um novo território. No olhar de cada mãe e de cada criança havia um quase "pedido de socorro". As mães pareciam estar fazendo algo imperdoável com seus filhos.
O primeiro dia de escola na vida da criança e da sua família é algo a ser celebrado, assim como o engatinhar, o caminhar e tantas outras conquistas. Entretanto, para algumas mães, é um momento de muita ambivalência, principalmente quando os pequenos são bem pequenos, por volta dos dois anos. As mães entendem que ir à escola é uma necessidade não só delas, mas dos seus filhos, porém alimentam a idéia da necessidade de controle sobre o desenvolvimento e o crescimento, e nem sempre se adequam com rapidez às mudanças inerentes ao desenvolvimento do seu filho, inclusive, encarando como um grande privilégio o acesso dos seus filhos a outra parte do processo educativo, agora fora de casa.
Voltando à cena anterior, enquanto eu passeava pela escola, observei que duas mães estavam dentro da sala de aula, achei estranho. Enfim, imaginei que para algumas crianças ou, melhor, para algumas mães, a situação havia se complicado mais. Continuei observando. Para minha surpresa, as duas mães, ora "papeavam" entre si, ora uma delas falava ao celular. A professora, muito nova, não sabia o que fazer e as crianças se agitavam. Até que num dado momento, não bastasse o desrespeito de falar ao telefone numa sala de aula, uma das mães começa a interferir nas ações da professora, sugerindo como devia agir com as crianças. Pensei: como é possível qualquer profissional, principalmente em educação, trabalhar de maneira autônoma nessa situação? Como uma mãe se vê com tanta autoridade? Dessa maneira nenhuma criança consegue aderir ao processo educacional escolar. A adaptação se tornará mais difícil e demorada! Para completar, uma das mães reclama da escola e ameaça não voltar. Claro, estou relatando uma exceção, felizmente! De qualquer maneira, isto nos dá a idéia do que assistimos todos os dias: crianças e jovens com uma imensa dificuldade para crescer, assumir as responsabilidades próprias da sua idade, respeitar as hierarquias e seguir numa trajetória em que pai e mãe podem estar ao lado, não a frente, nem atrás. Além disso, fica mais que provado que educação ocorre por meio de atitudes coerentes, "faça o que digo e faça o que faço", por parte daqueles que são os responsáveis pela criança e pelo jovem. A velha e conhecida fórmula: exemplo.
Eleanor Roosevelt dizia: "a melhor maneira de dificultar a vida dos filhos, é facilitá-la para eles." Claro, não estou defendendo a criação de dificuldades desnecessárias, mas por que eliminar aquelas que são parte do crescimento? E, pior: como dar o melhor se você não faz o melhor na relação com o ambiente, com o professor, com a escola e com todos que estão inseridos no dia-a-dia do processo de educação?
Os livros de desenvolvimento infantil e as mais variadas teses originadas pelos mais diversos estudiosos do comportamento de crianças comprovam todos os dias, que o amor, a celebração, a verdadeira capacidade de compreender o outro e as atitudes dos pais no dia-a-dia são os principais ingredientes que nutrem o desenvolvimento biopsicossocial saudável, capacitando os seres humanos, em todas as fases da sua vida, a enfrentar seus desafios. Sem dúvida uma das maneiras de aprender é pela imitação. Pais são modelos, sempre!
Talvez por esta e outras razões, as famílias busquem parceiros e orientadores para o processo educacional dos seus filhos. As estantes das livrarias estão cada vez mais abarrotadas de livros sobre educação infantil. Entretanto há algo que não se pode ensinar por meio da teoria: a atitude de respeito para com o mundo que cerca cada família.
Os exemplos que trouxe são rápidas ilustrações do que chamo de atitude de respeito por aqueles que são fundamentais na educação das crianças: professores. Quando os adultos que cuidam das crianças não conseguem exercitar o respeito no seu dia-a-dia, dificilmente, poderá se esperar delas atitudes de respeito em relação aos adultos.
Talvez por esta e outras razões, as famílias busquem parceiros e orientadores para o processo educacional dos seus filhos. As estantes das livrarias estão cada vez mais abarrotadas de livros sobre educação infantil. Entretanto há algo que não se pode ensinar por meio da teoria: a atitude de respeito para com o mundo que cerca cada família.
Os exemplos que trouxe são rápidas ilustrações do que chamo de atitude de respeito por aqueles que são fundamentais na educação das crianças: professores. Quando os adultos que cuidam das crianças não conseguem exercitar o respeito no seu dia-a-dia, dificilmente, poderá se esperar delas atitudes de respeito em relação aos adultos.
Talvez por esta e outras razões, as famílias busquem parceiros e orientadores para o processo educacional dos seus filhos. As estantes das livrarias estão cada vez mais abarrotadas de livros sobre educação infantil. Entretanto há algo que não se pode ensinar por meio da teoria: a atitude de respeito para com o mundo que cerca cada família.
Os exemplos que trouxe são rápidas ilustrações do que chamo de atitude de respeito por aqueles que são fundamentais na educação das crianças: professores. Quando os adultos que cuidam das crianças não conseguem exercitar o respeito no seu dia-a-dia, dificilmente, poderá se esperar delas atitudes de respeito em relação aos adultos.
Fonte: OLIVEIRA, Blenda. Educação dos filhos começa pelo respeito aos pais e professore. Disponível em:  http://minhavida.uol.com.br/conteudo/11922-Educacao-dos-filhos-comeca-pelo-respeito-aos-pais-e-professores.htm Acesso em: 25 de setembro de 2010.    ____________________________________________________________________________

Para começar nossa leitura, nada melhor que um texto de Rubem Alves. Boa leitura a todos!!!
Sobre Moluscos, Conchas e Beleza

Voltamos ao mundo dos moluscos, que fez Piaget pensar sobre os homens... Deles a primeira coisa que vi foram as conchas. Eu vi, simplesmente, sem nada saber sobre suas origens. Ignorava que existissem moluscos. Não sabia que elas, as conchas, tinham sido feitas para ser casas daqueles animais de corpo mole que, sem elas, seriam devorados pelos predadores. Meus olhos apenas viram. Viram e se espantaram.
O espanto – os gregos sabiam que é no espanto que o pensamento começa. O espanto vem quando um objeto se coloca diante de nós como um enigma a ser decifrado: “Decifra-me ou te devoro!”. Conchas são objetos espantosos.
Foi um espanto estético. Foi a beleza que exigiu que eu as decifrasse. Conchas são objetos assombrosos, construídos segundo rigorosas relações matemáticas. Os moluscos eram também artistas, arquitetos. Suas casas tinham de ser belas. Será que a natureza tem uma alma de artista? Coisa estranha essa, com certeza alucinação de poeta, imaginar que a natureza seja a casa de um artista!
Não para Bachelard, que não se envergonhava em falar sobre “imaginação da matéria”. Haverá uma analogia entre a natureza e o espírito humano? Serão os homens apenas a natureza tomando consciência de si? Antes que a “Pieta” existisse como escultura, existiu como realidade virtual na alma de Michelangelo. Antes que as conchas existissem como objetos assombrosos, elas existiam como realidades virtuais na “alma” dos moluscos...
Pensei que a vida não produz apenas objetos úteis, ferramentas adequadas à sobrevivência. A vida não deseja apenas sobreviver, ela não se satisfaz com a utilidade. Ela constrói os seus objetos segundo as normas da beleza. A vida deseja alegria. Assim acontece conosco: precisamos sobreviver e, para isso, cultivamos repolhos, nabos e batatas e estabelecemos a ciência do cultivo de repolhos, nabos e batatas. Esse é um dos sentidos da ciência: receitas para construir ferramentas para a sobrevivência.
Mas, por razões que se encontram além das razões científicas, talvez por obra do artista invisível que mora em nós, gastamos nosso tempo e nossas forças na produção de coisas inúteis, tais como violetas,orquídeas e rosas, coisas que não servem para nada e só dão trabalho... Nosso corpo não se alimenta só de pão. Ele tem fome de beleza. Creio que Jesus Cristo não se importaria e até mesmo sorriria se eu fizesse uma paráfrase da sua resposta ao diabo, que o tentava com a solução prática; “Não só de repolhos, nabos e batatas viverá o homem, mas também de violetas, orquídeas e rosas...”.
Uma menina perguntou a Mário Quintana se era verdade que os machados públicos iriam cortar um maravilhoso pé de figueira que havia numa praça. Isso o levou de volta aos seus tempos de menino. No quintal de sua casa havia uma paineira enorme, que, quando florescia, era uma glória. Até que um dia foi posta abaixo simplesmente “porque prejudicava o desenvolvimento das árvores frutíferas. Ora, as árvores frutíferas! Bem sabes, menininhazinha, que os nossos olhos também precisam de alimento...”.
Penso que, desde que o objetivo da educação é permitir que vivamos melhor, nossas escolas deveriam tomar a natureza como sua mestra. Assim, já que tanto falam em Piaget, imaginei que poderiam adotar as conchas como símbolos, afinal de contas, foi no estudo dos moluscos que o seu pensamento sobre educação se iniciou.
E quando indagados por pais e alunos sobre as razões de serem as conchas os símbolos da escola, os professores teriam uma ocasião pra lhes dar a primeira aula de Filosofia da educação: O objetivo da educação é ensinar às novas gerações construir casas. É preciso que as casas sejam sólidas, por causa da sobrevivência. Para isso as escolas ensinam a ciência. Mas não basta que nossas casas sejam sólidas, é preciso que sejam belas. A vida deseja alegria. Para isso as escolas ensinam as Artes.
Hume, ao final do seu livro “Investigação sobre o entendimento humano”, propõe duas perguntas - somente duas - , que
se feitas, produziriam uma assepcia geral do conhecimento. De forma semelhante, e inspirado pela sabedoria dos moluscos e suas conchas, quero propor duas perguntas sobre tudo o que se ensina nas escolas. Primeira: Isso
que estou ensinando é uma ferramenta? Tem um uso prático? Aumenta o poder do aluno sobre o mundo que o cerca? De que forma ele pode usar isso que estou ensinando como ferramenta para construir a sua concha, a sua “casa”?
Segunda: Isso que estou ensinando contribui para que o meu aluno se torne mais sensível à beleza? Educa a sua sensibilidade? Aumenta as suas possibilidades de alegria e de espanto?
Concluo com as palavras de Hume: Se a resposta for negativa, então “que seja lançado ao fogo”, porque nada tem a ver com a sabedoria da vida. Não passa de tolice e perda de tempo...
Category: 1 comentários

Um comentário:

Eva Rocha disse...

Relendo esse texto lindo e coerente, penso o quanto nossos alunos e nós mesmos perdemos do "espanto" necessário à construção do conhecimento. Hoje tudo parece tão normal e banal... Parece não haver descobertas nos dias atuais, por mais impressionantes que sejam todos os feitos que nos cercam... É mesmo um mistério, triste, mas um mistério a ser investigado por nós, Educadores.

Pensamento do Dia

" Milagres acontecem quando a gente vai à luta"
(Poeta Sérgio Vaz)


"Viver é como andar de bicicleta: É preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio"

(Albert Einsten)


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